A estranha operação da Qualicorp com seu fundador

A estranha operação da Qualicorp com seu fundador

Ontem a Qualicorp divulgou fato relevante sobre uma das mais estranhas operações dos últimos tempos. A Qualicorp anunciou que seu conselho de administração aprovou o pagamento de R$ 150 milhões para seu fundador e maior acionista, José Seripieri Filho – conhecido como Junior – que detém cerca de 15% do capital da companhia. Além de maior acionista Junior também é presidente e membro do conselho de administração da Qualicorp.

O pagamento foi realizado como parte de um acordo de non-compete, segundo o qual Junior não poderá alienar sua participação na empresa por um período de seis anos, renovável por mais dois anos. A partir do quinto ano do acordo Junior poderá alienar até 10% das ações da companhia, devendo permanecer com 5% do capital da companhia.

Segundo notícias da imprensa o pagamento foi realizado por que Junior pretendia deixar a companhia e abrir um serviço concorrente no mercado de saúde. Em entrevista hoje ao Brazil Journal Junior confirmou essa teoria, ao afirmar que estava estudando novas iniciativas disruptivas no mercado de saúde, mas por não ser mais o controlador da Qualicorp tinha dúvidas sobre se seria moralmente correto realizar essas iniciativas fora da companhia.

Junior também esclareceu que durante anos recebeu apenas um pagamento de pro labore como presidente. Importante notar, no entanto, que segundo relatório do Banco Safra, o salário do presidente subiu de 1,2 milhão para 24 milhões esse ano.

Ou seja, considerando que Junior deve, provavelmente, continuar como CEO por, ao menos, mais 5 anos irá receber os 150 milhões já mencionados mais 24 milhões pelos próximos 5 anos. Dessa forma, Junior irá receber, ao menos, 270 milhões da empresa nos próximos 5 anos.

A disponibilidade atual da Qualicorp é de, aproximadamente, 469 milhões de reais. Logo, cerca de 32% do caixa atual da companhia foi distribuído para Junior – 150 milhões.

O grande problema de toda a operação descrita, por mais que Junior seja um empresário inovador, é que a companhia tenha que pagar um valor tão elevado para Junior não vender sua participação sendo que ele é o ATUAL presidente da Qualicorp.

Ademais, teria Junior todo esse valor para a empresa? Se considerarmos que isso é verdade, a empresa teria uma sobrevida de apenas 5 a 8 anos, por que quando Junior tiver a possibilidade de deixar a empresa, após esse período, ela acabaria deixando de existir. Essa hipótese parece exagerada assim como a remuneração de Junior, tanto no acordo non-compete como no seu novo salário de CEO.

Os acionistas minoritários, XP a frente, informaram que irão atrás da devida reparação em decorrência desse pagamento, inclusive através da via judicial.

Considerando que a empresa teve um lucro de 88,6 milhões no 2 trimestre de 2018, embora tenha tido uma queda expressiva no número de beneficiários, Junior recebeu o equivalente a quase 2 trimestres de lucro da empresa.

Outro foco de tensão para a companhia, ainda não mencionado na imprensa, foi a delação de Palocci, divulgada ontem. Segundo o ex-ministro mais de 90% das medidas provisórias aprovadas nos governos do Partido dos Trabalhadores envolveram pagamentos para favorecimento de empresas. Importante lembrar que já recaíram suspeitas de favorecimento da Qualicorp por medidas provisórias aprovadas nos governos petistas, assim como é notória a proximidade de Junior com Luiz Inácio Lula da Silva. Não existe nada confirmado nesse sentido, mas essa sombra paira sobre a companhia.

Por fim, tentando ver o copo meio cheio da operação, se é que ele existe, o pagamento para a manutenção de Junior como acionista poderia ter sido motivado por um possível interesse de compra do controle da companhia, mas o potencial comprador teria exigido a manutenção de Junior como presidente, o que teria motivado o polpudo pagamento. No entanto, até o momento, nenhuma informação concreta dá suporte a essa hipótese.

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