A estranha guerra de versões na possível fusão entre Casino e Carrefour

A estranha guerra de versões na possível fusão entre Casino e Carrefour

O Casino, grupo francês que controla no Brasil o Grupo Pão de Açúcar e a Viavarejo, soltou um fato relevante na segunda-feira afirmando que foi procurado pelo Carrefour para negociar uma possível combinação de negócios entre as companhias. Segundo o comunicado,o conselho de administração do Casino teria decidido não prosseguir com as negociações.

O Carrefour, após o fato relevante, disse que o comunicado do concorrente não era verdadeiro e que não procurou o Casino para qualquer tipo de acordo.

Hoje, terça-feira, os jornais trazem as versões, extraoficiais, de ambas as companhias. Ambas concordam em apenas um ponto: Uma reunião foi realizada no dia 12 de setembro com representantes de ambas as empresas. A partir daí as versões são conflitantes. Segundo o Casino o primeiro interesse na possível operação foi exposto pelo Carrefour, e o Casino, como condição precedente para seguir com as negociações, teria solicitado que o Carrefour assinasse um acordo de confidencialidade, que previa o compromisso, por parte do Carrefour, de não fazer uma oferta hostil pelo Casino.

A versão de pessoas ligadas ao Carrefour parte de premissas diferentes. Segundo a empresa, o Casino a procurou para negociar uma possível combinação dos negócios, e dias depois do primeiro encontro, teria solicitado um cronograma das negociações, assim como um acordo de confidencialidade que impedia uma oferta hostil do Carrefour. Por entender que as negociações ainda estavam em um estágio muito inicial o Carrefour se recusou a assinar o documento.

Uma possível fusão entre Casino e Carrefour não é exatamente uma novidade. Em 2011, Abílio Diniz, na época sócio do Casino no Grupo Pão de Açúcar, sugeriu uma combinação dos ativos brasileiros de ambas as empresas, no entanto, o presidente do Casino, Naouri, foi contrário à ideia. Após deixar a sociedade no Pão de Açúcar, Abílio passou a comprar ações do Carrefour. Hoje o empresário detém uma participação de 11,3% do capital votante do Grupo Carrefour, e 11,5% do capital da sua subsidiária brasileira.

O Carrefour promoveu mudanças em sua direção nos últimos anos, em especial após a entrada de Abílio como acionista da empresa, em 2016. O Carrefour contratou Bompard, ex-presidente da Fnac, para iniciar uma reestruturação na empresa que não vinha obtendo os resultados esperados nos últimos anos.

O Casino, por outro lado, foi alvo de uma intensa desvalorização de suas ações nos últimos meses devido à proximidade do vencimento de suas dívidas e a baixa posição de caixa da companhia. Uma possível solução para esse problema seria a venda controle da Viavarejo, mas a crise no Brasil atrasou o cronograma de venda da companhia.

Resumindo, as ações das duas empresas estão devendo em seu desempenho na bolsa, e a recente entrada da Amazon no mercado francês, apesar de atuar em parceria com o Casino em alguns mercados, colocou mais pressão sob as duas empresas.

Em uma possível fusão não seria fácil acomodar os interesses de todos os envolvidos, Naouri, que sempre gostou de estar no comando dos negócios em que se envolveu, fatalmente se tornaria mais um acionista minoritário da empresa resultante. Hoje o valor de mercado do Casino é de 3.95 bi de euros enquanto o do Carrefour é de cera de 13 bi de euros, ou seja, mais de quatro vezes superior. Além disso, o Carrefour auferiu receita cerca de três vezes superior a do Cassino no ano de 2017.

Considerando que um acordo fosse alcançado, o que seria provocado muito mais pela necessidade das empresas de apresentar um fato ao novo mercado do que por uma convergência sincera de ideias entre o management das companhias, este seria alvo de um escrutínio regulatório. No Brasil a participação de mercado da empresa resultante poderia ser maior que 50%, o que levaria a imposição de restrições por parte do CADE. Na França, por mais que a participação de mercado fosse menor, cerca de 33%, a operação também seria, provavelmente, alvo de restrições.

Por fim, a mera união das empresas traria um alívio momentâneo as cotações e as finanças de ambas, mas não resolveriam seu maior problema: O aumento de participação do e-commerce em seus cenários de atuação. Em um primeiro momento, ambas as empresas parecem ter demorado a voltar sua atuação para essa frente, o que levou a diminuição de seus lucros e desvalorização de suas ações, e a mera junção das duas empresas, por mais que traga diversas sinergias e maior poder de barganha junto a fornecedores, não resolveria de imediato esse problema de longo prazo.

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